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O desafio da tradução bíblica



Toda versão bíblica tem e precisa ter claro foco sobre o público a que se destina e uma linha teológica bem definida

Cada vez que um cristão brasileiro abre seu exemplar da Bíblia Sagrada, tem diante dos olhos uma bela e épica história – a da tradução das Escrituras para nosso idioma. Essa história começa ainda na Idade Média, em Portugal. Pouca gente imagina, mas a língua portuguesa está entre as pioneiras no contexto europeu. Os primeiros textos bíblicos em português apareceram antes mesmo das versões em inglês, do francês e alemão – e graças ao rei português D. Diniz (1279-1325). Com base na Vulgata Latina, o monarca traduziu até o capítulo 20 do livro de Gênesis. Apesar disso, os mais antigos registros de tradução da Bíblia na língua de Camões deixados para a posteridade são de 1495.

Mas falar em tradução bíblica é falar em João Ferreira de Almeida. Nascido em 1628, próximo a Lisboa, Almeida fez história como o primeiro a traduzir o texto bíblico a partir das línguas originais. O Novo Testamento de Almeida foi completado em 1676, e acabou sendo publicada em 1681, na Holanda. Até morrer, o tradutor avançou pelo texto do Antigo Testamento até o livro do profeta Exequiel. E o trabalho foi completado por Jacobus op den Akker, da Batávia, em 1748. Todavia, somente cinco anos mais tarde, em 1753, é que foi impressa a primeira Bíblia completa em português.

A célebre tradução de João Ferreira de Almeida recebeu muitas revisões nas últimas décadas e deu origem a várias versões similares. A verdade é que as novas revisões do texto o distanciam em muito do texto original de Almeida. Hoje, existem quatro versões cirrigidas: a Corrigida antiga, de 1942; a Corrigida Fiel (1994); a Corrigida 2ª edição, de 1995, e finalmente a Corrigida Juerp, lançada em 1997. Já a versão Atualizada, profunda revisão de estilo e crítica da Corrigida já tem duas versões – a primeira e a Atualizada 2ª edição, de 1997. Além disso, merecem destaque também a Versão Revisada (1967), publicada pela Imprensa Bíblica Brasileira-Juerp, e a versão Contemporânea, da Editora Vida (1990).

Somente na década de 1970 é que muitas novas traduções da Bíblia passaram a ser publicadas. O resultado de tantos anos de profundos estudos bíblicos são uma série de versões não literais e baseadas na pesquisa exegética e lingüística mais recente. No segmento católico, surgiram as primeiras versões traduzidas a partir das línguas originais. Em 1976, foi publicada a Bíblia de Jerusalém, erudita e repleta de notas técnicas. Seis anos depois, surge a Bíblia Vozes, com uma linguagem menos vetusta, mas com boa base exegética. Mais tarde, vieram a Bíblia Pastoral (1990), com estilo mais popular e dependente da Teologia da Libertação; e a Tradução Ecumênica, de 1997, muito erudita e a mais rica em notas críticas e lingüísticas disponível em português. Mais recentemente, surgiram a Tradução da Bíblia da CNBB (2001), a Nova Bíblia de Jerusalém (2002 – uma revisão completa da antiga) e a Bíblia do Peregrino, publicada em 2002, dirigida pelo prestigiado exegeta Luis Alonzo Schökel.

No meio protestante, foram publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil, a SBB, a popularíssima Bíblia na Linguagem de Hoje (1988). Suas características são uma linguagem popular e uma tradução mais flexível, mas baseada em exegese erudita e respeitada e com um enfoque teológico bem mais aberto. Depois dela, ainda veio a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (2000), ainda mais coloquial. No mesmo ano, foi publicada a Nova Versão Internacional, a NVI, pela Sociedade Bíblica Internacional. Trata-se de uma versão caracterizada por precisão técnica, linguagem atual, fluência, riqueza exegética – e foi muito apreciada por ser genuinamente evangélica em sua abordagem teológica. A NVI foi um projeto elaborado por cerca de 20 estudiosos e que durou dez anos. Finalmente, em 2008, é lançada uma revisão profunda de Almeida por um grupo de editoras evangélicas de peso: Juerp, Hagnos, Vida Nova e Atos. É a chamada versão Almeida Século 21. Trata-se de uma versão que pode ser definida por sua exatidão e fluência, sem abrir mão da tradição.

O desafio de traduzir a Bíblia começa com a questão do texto original. É de conhecimento geral que não temos os manuscritos originais das Escrituras – mas há milhares de cópias guardadas em bibliotecas, museus e instituições religiosas de todo o mundo. Todas as traduções são feitas a partir dessas cópias. Sempre que se quer lançar uma nova tradução, épreciso um trabalho minucioso de crítica textual muito bem feito com esses manuscritos, para se obter o máximo de fidedignidade, ou, em outras palavras, chegar-se ao texto mais próximo do original. Graças a Deus, a Bíblia é um dos livros mais bem preservados da história. O resultado desse trabalho está na Biblia Hebraica Stuttgartensia, Antigo Testamento baseado no Texto Massorético,e no Novum Testamentum Graece, editado por Eberhard Nestle e Kurt Aland, ambos publicados pela Deutsche Bibelgesellschaft , a Sociedade Bíblica Alemã. O fato é que quase todas as traduções bíblicas do mundo baseiam-se principalmente nesses textos, considerados o consenso pela vasta maioria dos estudiosos da área. Apesar da grande concordância entre eles, há algumas variações entre manuscritos sinalizadas nas traduções mais críticas e contemporâneas, através de notas de rodapé. Das versões em português, somente a versão corrigida de Almeida não se utiliza do texto crítico do Novo Testamento. A diferença entre as duas versões neotestamentárias no original é de cerca de 1%, sendo que a inversão de “Jesus Cristo” para “Cristo Jesus” é a principal diferença.

Deixando a crítica textual de lado, é preciso salientar que toda versão bíblica tem e precisa ter uma linha teológica, aspecto sobre o qual é impossível uma neutralidade absoluta. Assim, temos uma divisão clara entre versões católicas e versões protestantes. Além da inclusão, naquelas, dos chamados livros apócrifos, vamos encontrar terminologia específica nessas traduções. Em certas passagens bíblicas, as traduções protestantes usam a expressão “arrependei-vos”, enquanto que algumas traduções de inspiração romana dizem “fazei penitência”. A Bíblia de Jerusalém, por exemplo, chega a usar a palavra “óstia” em Romanos 12.1-2. Já a versão Pastoral é claramente alicerçada na Teologia da Libertação. Uma simples lida nos títulos do texto de Êxodo 4 não deixará nenhuma dúvida sobre seu enfoque marxista na leitura da passagem. A versão Almeida Corrigida costuma ser preferida por denominações pentecostais mais conservadoras, como a Congregação Cristã do Brasil e a Igreja Deus é Amor, enquanto que a Nova Tradução na Linguagem de Hoje é mais usada por grupos que adotam uma linha teológica bem mais aberta. Esse enfoque pode ser percebido em textos como Deuteronômio 32.8: “Quando o Altíssimo separou os povos e deu a cada povo as suas terras, ele marcou as fronteiras das nações, dando a cada uma o seu próprio deus.” Como se pode observar, todo trabalho de versão bíblica deve definir sobre qual linha teológica vai se embasar.

A tarefa de tradução bíblica tem como outro grande desafio a questão semântica. Nem todos têm noção dessa realidade, mas muitas palavras do texto hebraico, aramaico e grego ainda hoje estão sendo estudadas e definidas com precisão. Mesmo que tais termos sejam minoria, em muitos casos representam difíceis problemas de tradução. O impacto das descobertas da arqueologia – como a dos Manuscritos do Mar Morto –, dos estudos de línguas como o acadiano e o ugarítico e do desenvolvimento da lingüística foram extremamente importantes para que fosse possível ter um conhecimento mais objetivo de muito vocábulos bíblicos. Os novos léxicos e dicionários teológicos técnicos, elaborados principalmente por estudiosos alemães, trazem muita informação semântica preciosa. É por essa razão que as versões mais recentes levam grande vantagem sobre as mais antigas – essas novas foram preparadas já com acesso ao resultado de descobertas e pesquisas atualizadas, que permitem a tradução mais precisa da Palavra de Deus.

Diante disso tudo, fica a pergunta que não quer calar: qual é a melhor versão bíblica? Essa pergunta não tem resposta. Afinal, todas têm seus méritos; mas é preciso, também, que tenham um foco claro. Uma versão pode ter valor histórico, literário, teológico etc. Mas se o objetivo é comunicar a mensagem das Escrituras ao povo comum, é preciso reconhecer que a dinâmica da língua exigirá revisões do texto que o tornem compreensível e impactante. Ninguém, por exemplo, usa a versão de Almeida de 1681 nos dias de hoje – afinal, a linguagem ali usada tornou-se incompreensível para o leitor de hoje. Por outro lado, algumas traduções antigas ainda usam termos praticamente desconhecidos nos dias de hoje, como “vitupério”, “chocarrice”, “impudicícia” e tantos outros arcaísmos. Além disso, toda boa versão bíblica precisa passar por revisões de tempo em tempo, a fim de eliminar anacronismos e contemplar as mudanças de significado que muitos termos sofrem ao longo dos tempos.

A tarefa de traduzir a Bíblia é um ministério permanente da Igreja. A comunidade cristã deve abrir seu coração e apoiar todos os esforços de tradução das Escrituras – principalmente, no caso das línguas que, em pleno século 21, ainda não possuem nenhuma versão da Palavra de Deus.

Luiz Sayão
Teólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.

Fonte: revista Eclésia n° 126
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2 comentários:

Alex disse...

é muito preciso ver os comentário do Pr. Luiz Sayão, mas gostaria de ver uma postagem sua Pr. Marcos.
Fique na graça e no amor de Jesus.

Alex - PIB em Jd. Primavera

Marcos Crecchi disse...

Graça e paz Alex, este blog contém postagens minhas e de outros irmãos em Cristo. Um bom conselho para você alex, pesquise mais este blog, e encontrarás meus vídeos e outros artigos.

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