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Bispo S/A (O envolvimento da IURD nas esferas empresarial, política, da mídia e do marketing Empresarial)



 
Na 'década perdida' de 1980, marcada pela crise de mudanças na organização social brasileira (redemocratização, eleições diretas, constituinte, planos econômicos, manifestações populares), a IURD cresceu com força vertiginosa. Comprando rádios, televisões, introduzindo líderes na política partidária, abrindo templos no Brasil e no exterior.

Culminou com a audaciosa compra da 'decadente e virtualmente falida' Rede Record de Rádio e Televisão em 1989. Depois, em 1995, comprou a sede e equipamentos da TV Jovem Pan por US$ 30 milhões. Também houve a compra da Rede Mulher que operava em UHF e via cabo, ao mesmo tempo em que comprou empresas e imóveis em nome da Igreja ou de 'testas-de-ferro'. Toda essa movimentação financeira sinalizou o potencial arrecadador da Igreja Universal e o exercício de uma administração racionalizada.

Rapidamente, a IURD se consolidou em vários campos avançando do religioso à estruturação econômico-empresarial e se abriu para a necessidade de ter e usar os recursos lucrativos midiáticos. A representação no âmbito político passou a ser compreendida como fator estratégico. Tendo liderança portadora de visão de conjunto, buscou estabelecer tentáculos em diversas esferas que deram sustentação e poder, a partir da instituição religiosa estabelecida. Nisso, o uso dos meios de comunicação social foram percebidos como primordiais.

Com uma refinada assessoria jurídica e financeira, o bispo Macedo soube tirar proveito das incongruências da legislação que beneficia igrejas e entidades filantrópicas. É claro que também outras Igrejas aproveitaram-se de semelhante recurso legal. Talvez não com tanta astúcia como a Igreja Universal fez.

Entre as acusações em âmbito civil, pesou a sonegação de impostos, evasão de divisas e usurpação da legislação brasileira em relação às instituições religiosas, protegendo todo seu lado empresarial na fachada eclesial. Mas, contratando advogados e especialistas financeiros, 'pagos a peso de ouro', tem conseguido embaralhar e não ser penalizado diante de nossa confusa legislação.

A partir daí, começou a despertar temor na concorrida faixa religiosa e empresarial, o que não se restringiu só ao Brasil. Em 1997, com vinte anos de existência, a IURD já tinha consolidado bases religiosas e empresariais e também tentativas políticas em países da Europa53 e no mundo, em torno de cinqüenta países. Em 2002, chegou a oitenta países.

A alegação dos altos custos da evangelização serviu para legitimar a mercantilização dos serviços religiosos, conforme inspiração da Teologia da Prosperidade. Até hoje, não se sabe o que é patrimônio da Igreja e suas empresas e o que é da família do bispo Macedo, com seu substancioso padrão de vida.

Tudo é justificado pelas necessidades operacionais da instituição e o bom sentido dado à ligação entre dinheiro e religião. Macedo diz sem constrangimento: "Assim como o sangue está para o corpo humano, também o dinheiro está para a obra de Deus".

E apela até para Jesus: "O dinheiro pode ser usado para o bem e para o mal. Eu, por exemplo, uso o dinheiro para o bem, coloco-o a serviço de Deus. (...) Jesus nunca foi pobre. Sendo o rei dos reis, Jesus era rico...".

O centralismo gerencial cerceia qualquer autonomia das Igrejas locais e de seus pastores/bispos. A clientela dos templos não sabe do destino dos dízimos e das ofertas. Não existe representatividade dos leigos nem prestação de contas, tudo permanece fechado, da mesma maneira que ocorre em uma empresa privada. Daí o questionamento: "(...) até quando as massas permanecerão apenas participando dos rituais na IURD, sem exigir a sua parte na administração, controle ou ao menos na supervisão da administração dos bens e recursos acumulados pela Igreja (...)?".
Na década de 90, as denúncias pulularam contra a Igreja Universal. Sua forte assessoria jurídica e capacidade de negociações nos meandros dos poderes constituídos da sociedade deram fôlego e resistência na consolidação da instituição e vencimento dos adversários. Nem mesmo as denúncias de ex-líderes, as investigações da Polícia Federal, a prisão do bispo Macedo, os programas e as reportagens nos meios de comunicações concorrentes derrubaram a solidez da IURD, uma autêntica holding empresarial com perfil religioso.

Macedo rechaçou jornalistas de outros veículos de comunicação e pesquisadores, proibiu seus liderados de concederem entrevistas, encaminhou processos na justiça e convocou o seu rebanho para uma 'guerra santa'. As denúncias foram transformadas em acusações persecutórias. "Estamos sendo castigados e perseguidos pela imprensa como cão danado. Eles querem arrancar nossa cabeça. Isto só aumenta nossa fé".
Até o fato de o bispo Macedo ter ficado doze dias na prisão em maio de 1992, acusado de charlatanismo, curandeirismo e estelionato, foi usado para sensibilizar seu público. Macedo demonstrou sofrimento por uma causa nobre, sendo humilhado, constrangido e levado num camburão da polícia.

O público iurdiano, líderes e políticos evangélicos de outras denominações se solidarizaram, vendo no fato uma perseguição religiosa, embora não fossem simpáticos ao estilo cultual e comercial da concorrente Igreja Universal. Essa solidariedade serviu para amenizar as críticas e proclamadas diferenças que Macedo sempre arrogou sobre as demais denominações religiosas, também do campo evangélico.
Mídia e Marketing

Uma competente utilização dos meios de comunicação de massa contribuiu para a instalação e consolidação da IURD. "A mídia faz com que as barreiras geográficas, sociais e ideológicas sejam rompidas e os 'produtos' iurdianos sejam colocados para um público necessitado, que lhe paga o preço pedido, porque se trata de alcançar a felicidade, o bem-estar físico e espiritual...".

Os programas religiosos, pelo fato de utilizarem a mídia eletrônica, não garantem conversões e novos adeptos. Em geral, seus ouvintes e telespectadores já pertencem a uma denominação eclesiástica. Estudos mostram que o efeito da mídia em programas religiosos é mediador.

Gira em torno do despertar da curiosidade e mexe com as situações de crises conscientes e inconscientes vividas pelos espectadores. A importância da programação religiosa está em atrair para a possibilidade de solução no 'contato pessoal' com a mensagem e com a prática ritual, nas quais a dinâmica de métodos da Igreja pode fazer o efeito de mudança de crenças, valores e atitudes. A partir daí, para esses, a mídia passa a ter o efeito de reforço nas decisões e nos comportamentos já ocorridos no contato institucional.

Por isso, a Igreja Universal diferencia-se do televangelismo norte-americano e não investe apenas na mídia eletrônica, mas diversifica ao usar uma variada produção escrita. As diferentes formas de comunicação servem para aproximar e para solidificar a importância do templo como espaço de visibilidade e irradiação do evangelismo via escala de atos cultuais.

Fonte: Folha online 09/11/2009


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1 comentários:

Pr. Marcos Crecchi disse...

Esse livro é tremendo,desvenda todo o trabalho empresarial da igreja universal.

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